LP Tim Maia - Racional 1 - 1974 samba groove and funk Brazil


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TIM MAIA
RACIONAL - VOL. 1
SEROMA - 0001 - 1974

CAPA EM ÓTIMO ESTADO DE CONSERVAÇÃO. RAROS SINAIS. EX-
VINIL EM ÓTIMO ESTADO DE CONSERVAÇÃO. POUQUÍSSIMOS SINAIS E ESCRITO NO SELO. EX---
vide imagens reais

FAIXAS:

1 - IMUNIZAÇÃO RACIONAL
2 - O GRÃO MESTRE VARONIL
3 - BOM SENSO
4 - ENERGIA RACIONAL
5 - LEIA O LIVRO UNIVERSO EM DESENCANTO
6 - CONTACTO COM O MUNDO RACIONAL
7 - UNIVERSO EM DESENCANTO
8 - YOU DON'T KNOW WHAT I KNOW
9 - RATIONAL CULTURE

 

Nascido no Bairro da Tijuca, zona norte do Rio de Janeiro, na esquina da Campos Sales com Afonso Pena, começou a compor melodias ainda criança e já surpreendia a numerosa família caçula de 19 irmãos.

Destacou-se pelo pioneirismo em trazer para a MPB o estilo soul de cantar. Com a voz grave e carregada, tornou-se um dos grandes nomes da música brasileira, conquistando grande vendagem e consagrando sucessos, lembrados até hoje, e que influenciaram o sobrinho, o cantor Ed Motta.

Pai da soul music brasileira, Tim Maia começou na música tocando bateria num grupo Tijucanos do Ritimo, formado na Igreja dos Capuchinhos próxima a sua casa, passando logo para o violão. Em 1957, fundou o Grupo vocal Os Sputniks, do qual participaram Roberto Carlos, Arlênio Silva, Edson Trindade e Wellington, ao contrário do que muitos pensam Erasmo Carlos nunca fez parte do grupo; Erasmo fez parte do The Snakes, grupo que acompanhava tanto Roberto quanto Tim após o fim do The Sputniks. Em 1959, foi para os Estados Unidos, onde estudou inglês e entrou em contato com a soul music, chegando a participar de um Grupo vocal, o The Ideals. No entanto 4 anos mais tarde viria a ser deportado de volta para o Brasil. Em 1969, foi chamado para gravar em dueto com Elis Regina a sua composição "These Are The Songs" no disco da cantora.

Seu primeiro trabalho solo foi um compacto pela CBS em 1968, que trazia as musicas "Meu país" e "Sentimento" (ambas de sua autoria, como todas as musicas sem indicação de autor). Sua carreira no Brasil fortaleceu-se a partir de 1969, quando gravou um compacto simples pela Fermata com "These are the Songs" (regravada no ano seguinte por Elis Regina em duo com ele, e incluída no LP Em pleno verão, de Elis) e "What Do You Want to Bet".

Anos 70

Em 1970 gravou seu primeiro LP, "Tim Maia", na Polygram, por indicação da banda "Os Mutantes", que permaneceu em primeiro lugar no Rio de Janeiro por 24 semanas. Neste disco, obteve sucesso com as faixas "Azul da cor do mar", "Coronel Antônio Bento" (Luís Wanderley e João do Vale), "Primavera" (Cassiano) e "Eu Amo Você". Até Elis Regina, reconhecendo o talento de Tim, gravou uma de suas composições em inglês, "These are the songs", no disco "Em pleno verão", de 1970.

Nos três anos seguintes, pela mesma gravadora, lançou os discos Tim Maia volume II, tornando-se cada vez mais famoso com canções como a dançante "Não Quero Dinheiro (Só quero amar)", na era Disco; Tim Maia volume III e Tim Maia volume IV, no qual se destacaram "Gostava tanto de você" (Edson Trindade) e "Réu confesso". Em 1975 gravou os LPs Tim Maia racional vol. 1 e vol. 2. Em 1978 gravou para a Warner Tim Maia Disco Club, com um de seus maiores sucessos, "Sossego".

Foi regravado por vários artistas, como Kid Abelha,Viper, Lulu Santos e Paralamas do Sucesso e recebeu até homenagens por parte de artistas do porte de Caetano Veloso e Jorge Ben Jor (W/Brasil).

"Tim Maia Racional"
Por
Alexandre Matias

Tim Maia sempre levou uma vida de excessos, em que sexo, drogas, brigas e curtição eram rotina. Viveu do jeito que quis, fez tudo que deu na telha e morreu em conseqüência das inúmeras baladas que participou. Uma vida inconstante, marcada por culpas e desculpas, namoros firmes com as paradas de sucesso e momentos de puro esquecimento artístico. Suas lendárias reclamações ao microfone e uma agenda não cumprida religiosamente eram apenas os sintomas superficiais de sua vida no limite. Mas por um momento em sua carreira, ele tentou se redimir. De verdade.

"Já rodei o mundo quase mudo / No entanto num segundo este livro veio à mão", canta em Bom Senso, a primeira faixa do mitológico Tim Maia Racional a citar nominalmente sua conversão. "Já senti saudade/ Já fiz muita coisa errada/ Já dormi na rua/ Já pedi ajuda/ Mas lendo atingi o bom senso: a Imunização Racional". Ele conta sua própria história sobre um funk progressivo pesado, aquele caldo grosso que os americanos chamam de deep funk. Com sua voz conduzindo uma orquestra soul perfeita (metais, cordas, guitarras, baixão, bateraço, backing vocals perfeitos, tecladaços), ele explica sua nova fase.

O disco que faz 25 anos marcava o início da relação de Tim Maia com a Cultura Racional. Como o próprio Tim explica no decorrer dos dois volumes de Tim Maia Racional, a Cultura Racional não é uma seita ou uma religião ou uma doutrina ou qualquer coisa do tipo. Ela diz-se "a verdadeira verdade, a luz da humanidade", a explicação para todas as perguntas da existência nos apresentados por uma força sobrenatural chamada de Racional Superior através de uma coleção de livros chamada Universo em Desencanto. Aos poucos, você fica sabendo de toda explicação para tudo, segundo a Cultura.

O disco marca o contato de Tim com ele mesmo. Ele deixa os modismos e rádio de lado e entra em contato com o fundo de sua alma, buscando, sem máscaras, a essência da black music. Lançado de forma independente, o disco saiu pela primeira gravadora de Maia, a Seroma (as primeiras sílabas de seu nome, Sebastião Rodrigues Maia), e nunca mais foi relançado após Tim se afastar da Cultura Racional. Por seu tão direto, um disco pastor, pregador, ele não foi assimilado em sua época, sendo resgatado nos últimos anos e tendo, finalmente, sua importância reconhecida. Lançado em duas partes, o disco pode ser pensado como um álbum duplo, devido a todo o conceito musical e imaginário que compõe o material. Suas capas e contracapas são reproduções de gráficos contidos no livro Universo em Desencanto, explicando as diversas fases da humanidade, todas indo no rumo da fase racional.

Ele abre com Imunização Racional, em que ele canta a "beleza que é sentir a natureza/ ter certeza pra onde vai e de onde vem/ (...) que beleza é saber seu nome/ sua origem, seu passado e seu futuro". O ritmo é quase um reggae, ponteado por um sinuoso baixo funky, entrecortado por uma guitarra wah-wah tímida, flautas e excelentes backing vocals, puxados pelo próprio Tim.

Em O Grão Mestre Varonil, ele saúda, a capella, Manoel Jacintho Coelho, divulgador da seita e tido como "o maior homem do mundo" pois "semeou o conhecimento". Seguida da densa e dramática Bom Senso, que mostra todo o instrumental assustador que Tim arranja. Deixa a banda comer o suíngue solto e brada o vozeirão, falando: "Leia o livro Universo em Desencanto. Não perca tempo".

Antes da próxima música, ele canta sozinho, um trecho de Energia Racional, que volta inteira no próximo disco. Leia o Livro Universo em Desencanto (sim, o disco é obcecado pelo tema), Tim guarda o funk no armário e solta todo o soul que sua cachola consegue soltar. Barry White e Marvin Gaye nos anos 70, mordam-se de inveja! Em Leia o Livro..., Tim desliza com graça, com seu gogó de tenor que é justamente o meio-termo entre o grave de White e o agudo de Gaye. Cordas e metais dão um veludo especial a esta que é um dos melhores momentos da carreira de Tim Maia.

Em Contacto com o Mundo Racional, ele volta a nos surpreender, seja no instrumental (um blues com violões acústicos soltando acordes leves e solos discretos) como no vocal (em que afina seu gogó e capricha um falsete de arrepiar o mais frio dos brancos). Em Universo em Desencanto, ele tenta, em vão, explicar toda a teoria do livro, explicando as eras da criação, de onde viemos, pra onde vamos. Musicalmente, nos convida para um samba colorido de funk, mostrando que seu conceito de black music abrange as Américas do Norte, Central e do Sul. "Leia o livro/ Vai saber/ O que realmente/ É viver", canta com tanta empolgação que, como um amigo meu diz, dá vontade de comprar e ler o tal livro, "A lição foi mal passada/ Quem aprendeu não sabe nada/ (...) Disseram que sabiam das coisas, mas no entanto não sabem coisa nenhuma/ Pura Inconsciência/ (...) É pra já/ É coisa linda/ É pra agora/ Vamos entrar em contato/ Com os nossos irmãos puros limpos e perfeitos/ Eternos do supermundo/ Da planície Racional/ Leia o livro Universo em Desencanto".

You Don?t Know What I Know ensaia o lado inglês de sua pregação, mais uma vez sozinho, sem instrumentos: "Read the book/ The only book/ Universe in Disenchantment/ And you?ll know the Truth", para em seguida entrar num electroboogie cheio de teclados (Hammonds, sintetizadores, Glockenspiels, Moogs, clavinetes) chamado Rational Culture. Depois de misturar Herbie Hancock com George Clinton numa introdução cabulosa, ele começa a pregação, toda em inglês: "Vamos governar o mundo/ Você não sabe?/ Vamos colocá-lo de pé". O suíngue é irresistível e depois do refrão Tim começa a dar ordens para o ouvinte, a la James Brown, sempre em inglês: "Ouçam todos/ Vamos contar a coisa mais importante que já ouviram na vida/ Nunca ouviram isso antes:/ Viemos de um supermundo, de energia racional/ E vivemos num antimundo, de energia animal/ Leia o livro, o único livro, Universo em Desencanto/ E vais saber a verdade".

O disco 2 abre com Quer Queira Quer Não Queira, um afro soul que explica que a Cultura Racional "não é história, não é doutrina, não é ciência, seita ou religião/ É coisa limpa, é coisa pura". O samba Paz Interior continua o clima de celebração, explicando como um sambista saindo de uma paixão mal resolvida, cantando que "agora já não dependo de você/ Voltou o brilho dos meus olhos/ Voltou a paz interior".

O groove pegajoso e lento de O Caminho do Bem é o primeiro grande momento do segundo disco, um funk suave, em que Tim acompanha o riff central cantando a expressão que batiza a canção. Acompanhado de um baixo de veludo, dois teclados elétricos minimalistas, percussão de trilha sonora e uma guitarra wah-wah amordaçada, ele transforma a Cultura Racional numa espécie de culto do gueto, como um pregador em ruas sem saída, que tenta hipnotizar uma legião de mendigos fanáticos com um mantra de ritmo.

"Eu tive que subir lá no alto para ver Energia Racional/ A verdadeira luz da humanidade", canta em Energia Racional repetidas vezes, ao som de um tapete sonoro perfeito. Que Legal pára no Caribe e toma doses caprichadas de mambo, salsa e rumba, principalmente com a adição de percussões caprichadas e um molho extra dado pelos teclados, enquanto ele explica que a Cultura Racional é "cultura consciente, com lógica e com base/ Não ataca, não ofende, não humilha".

A balada Cultura Racional mais uma vez vai direto ao assunto, explicando o centro de sua nova visão de mundo: "Todo mundo vai saber/ Muita paz, muita união/ Universo em Desencanto/ Leia logo, vamos irmão/ Saber de tudo/ De toda beleza real/ Ficar integrado na fase que é racional". O soul derramado - de fazer inveja a qualquer baladeiro dos anos 70 - de O Dever de Fazer Propaganda Desse Conhecimento nos faz ter certeza que Tim realmente acredita no que fala e, talvez, esteja mesmo em outra etapa da evolução mental. Canta um texto que, se lido, se tornaria chato e desinteressante com tanta emoção que soa como uma canção de amor, um hino a Deus, de tão natural: "Vou informar o que eu já sei/ De benefícios pra tudo e pra todos/ Recuperar o natural/ Pois a vida é racional".

Novamente ele aponta para a África e canta que veio "para lhe dizer/ Que eles agora estão/ Numa relax, numa tranqüila, numa boa/ Lendo os livros da Cultura Racional". Eles quem, você se pergunta? Os povos dos três países que batizam Guiné Bissau, Moçambique e Angola Racional, que toma doses de rock graças a um solo pontiagudo que sobe sobre a base bossa criada pela cozinha. O disco termina com Imunização Racional Que Beleza, que conclui a tese com a mesma conclusão, só que com um arranjo diferente. Neste disco, Tim Maia é Deus e é ele quem decide como são as coisas. Ele conhece tudo, ele sabe tudo, de que adianta ser contra? Resta apenas disposição para encontrar uma raridade destas pelos sebos de disco do Brasil. 

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